Crosscurrents: Dimensões Culturais e Projeto e Interfaces
Globais para a Web
Crosscurrents: Cultural Dimensions and Global Web
User-Interface Design
Aaron Marcus and Emilie West Gould
Christian Reis
[kiko@async.com.br]
Abstract:
Um estudo pioneiro de Geert Hofstede, feito há mais de 20 anos,
estabeleceu uma série de parâmetros culturais que detalham padrões
básicos de pensamento, sentimento e ação. Este artigo relaciona estes
parâmetros culturais com seu efeito no projeto de interfaces com o
usuário, levando em conta especialmente as interfaces Web.
O antropólogo Geert Hofstede, no final da década de 70, estabeleceu uma
série de índices culturais através de análises estatísticas de
entrevistas detalhadas com funcionários da IBM em 53 países. Este estudo
enfatizou os principais padrões culturais e suas diferenças
trans-nacionais. As dimensões de cultura levantadas por Hofstede são:
- Distância de Poder, que é uma medida do quanto membros
menos poderosos de uma civilização aceitam e esperam distribuição
desigual de poder na sociedade.
- Coletivismo vs. Individualismo, que é uma medida do
quanto membros de uma sociedade são responsáveis pelos que estão à sua
volta.
- Femininidade vs. Masculinidade, que é uma medida do
quanto tarefas e características femininas são compartilhadas pelos
homens de uma sociedade.
- Evasão de Incerteza, que analisa a extensão da ansiedade
e inquietação que as pessoas sentem ao encarar situações inesperadas ou
incertas.
- Orientação Longo-prazo vs. Curto-prazo, que mede a
expectativa de tempo de duração para o retorno ou recompensa de uma
certa tarefa.
A Web, com seu alcance global, trouxe a tona aos desenvolvedores de
interface assuntos que até então recebiam muito pouca atenção: O impacto
da cultura local sobre os visitantes de sites internacionais é bastante
significativo e, até hoje, muito pouco compreendido. Como facilidade e
objetividade são características das mais importantes para o
desenvolvedor de interfaces Web, é importante entender melhor como este
impacto se dá, e quais interfaces são mais apropriadas e convenientes.
O artigo se propõe a relacionar características levantadas por Hofstede
com interfaces Web de países analisados na pesquisa, com o propósito de
analisar seus efeitos práticos nas interfaces.
Para cada um dos índices foi estudado um conjunto de websites
apropriados, e verificadas as características comuns e diferentes destes
sites.
- Distância de Poder: Usuários de países com índice baixo
tendem a requerer maior estrutura, hierarquia e liderança simbólica; os
sites analisados refletem estas necessidades na presença de brasões e
logotipos oficiais, e na ênfase nos líderes e monumentos. Países com
índice alto apreciam menor profundidade de hierarquia, aceitam melhor
disposições assimétricas, e enfatizam o poder do indivíduo.
- Coletivismo vs. Individualismo:
Culturas individualistas enfatizam o desempenho pessoal, materialismo,
argumentação e liberdade; sites destas culturas dão ênfase aos objetivos
e possibilidades do visitante. Sites de culturas coletivistas enfatizam
intenções corporativas e nacionais, e fazem pouca menção ao turista
individual.
- Femininidade vs. Masculinidade:
Países com alta masculinidade tendem a enfatizar distinções de sexo e
família, as tarefas e habilidades utilizadas, e buscam atenção através de
competições e jogos. Sites destes países em geral possuem seções
separadas para sexos, e usam gráficos e multimídia com propósito
objetivo. Países com alta femininidade enfatizam a pouca distinção de
sexo, a cooperação e suporte, a atenção através de poesia, estética e
valores unificantes.
- Evasão de Incerteza:
Das características de países com alto índice, derivam-se interfaces
simples, com metáforas claras, e preparando o usuário para os resultados
e implicações das suas ações. A navegação enfatiza a facilidade de
encontrar-se e não perder-se. Em contrapartida, culturas com índices
baixos enfatizam alto grau de opção e complexidade, aceitação de risco e
divagação, e a busca de uma compreensão mais profunda de conceitos
fundamentais.
- Orientação Longo-prazo vs. Curto-prazo:
Dadas os aspectos de culturas orientadas a longo prazo, levantou-se que
usuários buscam conteúdo focado em prática e valor prático, e
relacionamentos como uma forma de informação, e que apresentam paciência
na obtenção de resultados. Culturas orientadas a curto prazo, no entanto
enfatizam conteúdo baseado em verdade, com regras claras como uma fonte de
credibilidade e informação, e com resultados rápidos e imediatos às
tarefas desejadas.
Da análise das interfaces relacionadas, podem ser levantadas uma série
de questões adicionais a respeito do projeto de interface, especialmente
para a Web. Estas questões podem ser tanto amplas (Quanto conflito as
pessoas aceitam em conteúdo ou argumentação?) como específicas (Devem
existir sites diferentes para homens e mulheres?). Compreendê-las melhor
se torna cada vez uma necessidade do desenvolvedor, e não apenas uma
opção de trabalho.
O artigo é muito interessante e inovador na tentativa de se fazer uso de
um trabalho antropológico internacional aplicado ao desenvolvimento de
interfaces globais. Existe, no entanto, muita distância entre o
projetista de interfaces e a teoria de variação cultural internacional;
muitos estão ainda dominando as questões essenciais ao trabalho de
projetas interfaces para públicos diversos.
Parecem bastante válidas as hipóteses levantadas nas comparações, e são
uma forma conveniente de se avaliar parâmetros quase sempre vistos de
forma muito subjetiva.
Existe amplo campo para discussão adicional dos resultados obtidos, e
para extensão das questões iniciais para incluir outras. Além destas
questões adicionais, no trabalho é proposta a necessidade de novas
ferramentas para padronização e criação de versões múltiplas de Websites
de uma forma eficiente.
- 1
- Marcus, Aaron e Gould, Emilie West. Crosscurrents:
Cltural Dimensiona and Global Web Design. Interactions, July-August,
2000.
- 2
- Nielsen, Jakob. Desining User Interfaces for
International Use. Elsevier Science Ltd, New York, 1990.
- 3
- Hofstede, Geert. Cultures and Organizations:
Software of the Mind. McGraw-Hill, New York, 1997.
Christian Reis
2000-10-20