Resumo: Da Forma Com Que Pensamos
Vannevar Bush


As We May Think - The Atlantic Monthly, July 1945
http://www.theatlantic.com/unbound/flashbks/computer/bushf.htm

Christian Reis
kiko@async.com.br

Resumo:

O artigo de Vannevar Bush, apesar de já ter mais de meio século de idade, discute um dos problemas mais difíceis para a comunidade científica, e para a humanidade em geral: encontrar uma forma de armazenar e recuperar o conhecimento que desenvolvemos em nossas pesquisas e investigações. O artigo apresenta propriedades importantes que as soluções existentes na época poderiam evoluir para oferecer, e sugere um mecanismo para automatizar as ações de guardar, indexar e recuperar conhecimento. O autor chama este aparelho de Memex.

Introdução

Este artigo foi escrito por Bush ao final da Segunda Guerra Mundial; por este motivo, vale lembrar que as descrições se aplicam à época (e que o tempo verbal é um reflexo do tempo verbal usado no texto). A estrutura do resumo não é a ortodoxa: o motivo é o fato do artigo ser bastante antigo e não-científico, e de não seguir uma estrutura formal de pesquisa.

O Problema: Armazenar e recuperar o conhecimento humano

Durante a guerra, os cientistas cooperaram, compartilharam e desenvolveram um corpo de conhecimento enorme. O progresso científico trouxe para o homem controle sobre o ambiente e a saúde, e facilidade para comunicar e armazenar idéias; o autor defende que seria importante armazenar este conhecimento convenientemente para que se avançasse a raça humana como um todo.

A questão seria encontrar uma forma de se fazer uso apropriado deste volume de informações sendo gerada. Informação que seria relevante para muitos é enterrada em meio à abundância absurda de conhecimento que é gerado, e as tentativas anteriores de se automatizar processamento, armazenamento e recuperação de conhecimento falharam por motivos tecnológicos e industriais que eram específicos à época. Os grandes avanços tecnológicos da época, no entanto, começavam a sugerir o início de uma possibilidade de se criar um sistema automatizado funcional.

Fotografia

A fotografia deveria evoluir para permitir registro conveniente em qualquer local, e revelação a seco seria de grande importância para se agilizar a consolidação das imagens. Uma tecnologia similar ao facsimile, associada a um aparato de projeção e à microfilmagem poderiam exibir convenientemente estas imagens capturadas.

Armazenando registros

Dispositivos para reconhecer e sintetizar fala começavam a aparecer. Combinados ao stenótipo, um aparelho que imprimia uma forma simbólica da língua falada, poderia ser possível se imprimir o que se fala. A linguagem deveria ser adaptada para ser registrada mais apropriadamente, e todo tipo de tarefa repetitiva deveria ser automatizada. As formas de automação seriam movidas a energia elétrica, com cartões utilizados para controle.

Seria importante manter a liberdade de movimento e a facilidade do registro para a maior quantidade possível de informações ser registrada e não ser perdida.

Automatizando operações lógicas

Usando relês, já existiam exemplos de automatização lógica. O uso de uma simbologia poderia auxiliar em muito a formalização de procedimentos lógicos para automação, e uma aplicação direta seria a filtragem de conteúdo, similarmente à forma com que uma central telefônica seleciona um número entre muitos com o uso de uma chave.

O texto cita um exemplo de uma loja com um sistema automatizado de vendas e controle de estoque; a automação era feita com cartões, e poderia utilizar fotografia a seco e gravação em microfilme para, ao final do mês, ser produzido um relatório para a cobrança, por exemplo.

O Memex

A mente opera por associação, e isto torna indexar a informação de forma alfabética ou numérica, ineficiente. O pensamento é mantido em uma teia de conhecimento no cérebro; seria ideal encontrar uma forma de se fazer algo análogo de forma automatizada.

O artigo sugere um aparelho chamado Memex, que armazena publicações, livros e anotação, conjuntamente com fotos, como um suplemento à memória humana com claridade e permanência melhor. O aparelho seria uma mesa de trabalho, com telas para projeção, teclado e botões e alavancas: o conteúdo armazenado seria armazenado em microfilme em um canto da mesa. Este conteúdo poderia ser rapidamente recuperado, sendo indexado por meio de códigos e mnemônicos para acesso fácil. Folhear entre as páginas seria feito através de uma alavanca que avançaria ou retrocederia dentro da publicação selecionada. Existiria um botão que convenientemente levaria à página inicial do repositório.

A maior parte do conteúdo para o Memex existiria para aquisição: livros, periódicos e jornais. Além disso, existiria uma plaqueta transparente onde poderiam ser colocadas anotações, imagens e memorandos, criados pelo usuário, para serem microfilmados e armazenados.

Documentos poderiam ser ligados em pares visualmente, usando os códigos para fazer as ligações em si. Uma outra alavanca navegaria entre estas ligações. Um caminho poderia ser criado seguindo estas ligações; a este caminho seriam acrescidos notas e comentários entre eles. Este caminho seria armazenado e poderia ser impressa e copiada para outro memex, permitindo que outros pudessem se aproveitar deste caminho.

Enciclopédias pré-relacionadas apareceriam, assim como bases de conhecimento em todas as outras áreas científicas. Pesquisadores e interessados teriam acesso a estas trilhas de conhecimento, e trabalhariam agregando e criando novos caminhos.

Estendendo a mente humana

No final do texto o autor sugere formas de se evitar o uso dos sentidos para ter acesso à experiência humana, fazendo amostragem direta dos impulsos nervosos e mecânicos do corpo humano. O artigo conclui com uma sugestão de que a civilização complexa que o Homem criou para si estaria melhor não taxando excessivamente sua memória e aproveitando uma forma de armazenamento claro e confiável. Desta forma, as tarefas centíficas passariam a ser focadas em analisar objetivamente os problemas atuais, se evitando perder em conflito o potencial de se utilizar este registro de seu conhecimento em seu benefício.

Objetivos

O artigo é uma exposição geral da situação tecnológica das áreas relevantes para o assunto do texto: fotografia, armazenamento de escrita e voz, e processamento desta informações. O artigo é uma visão e sugestão para a automatização de uma ferramenta cognitiva que se apoiaria nestas áreas.

Discussão

Como foi escrito para uma revista não-científica, é razoável a inexistência de referências e o tom (um pouco retórico) do texto. O artigo é incrivelmente incisivo nos seus pontos principais; aparece especialmente relevante a seção onde o autor afirma que o problema da recuperação da informação tem relação com as técnicas usadas para indexar o conhecimento -- a ordem alfabética e numérica são muito pouco intuitivas.

É interessante perceber como a proposta de se criar um aparato mecânico para solucionar o problema apresentado é algo que hoje seria visto como algo totalmente inesperado; simplesmente não é considerado no texto o assunto de digitalização ou discretização, que é a base para o processamento de informação moderno. Também não é discutido nenhum tipo de suporte para múltiplas línguas ou localidades, que são hoje vistas como chaves para a disseminação livre de informação.

É interessante a citação do autor às maquinas que eram os predecessores idealizados do Memex: a máquina analítica de Charles Babbage e a máquina de calcular de Gottfried Leibnitz. Vale notar que mesmo o Memex nunca foi construído.
Também é muito interessante perceber que o desejo de se armazenar voz, texto e imagens se perpetuou por este tempo e que encontrou na Web um veículo aceitável, finalmente.

Bibliografia

1
Vannevar Bush. As We May Think, in The Atlantic Monthly, Julho, 1945 (também
http://ccat.sas.upenn.edu/ jod/texts/vannevar.bush.html,
e http://www.theatlantic.com/unbound/flashbks/computer/bushf.htm,
visitados pela última vez em 23 de Agosto, 2000



Christian Reis 2000-08-24