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Christian Reis
kiko@async.com.br
Este artigo foi escrito por Bush ao final da Segunda Guerra Mundial; por este motivo, vale lembrar que as descrições se aplicam à época (e que o tempo verbal é um reflexo do tempo verbal usado no texto). A estrutura do resumo não é a ortodoxa: o motivo é o fato do artigo ser bastante antigo e não-científico, e de não seguir uma estrutura formal de pesquisa.
Durante a guerra, os cientistas cooperaram, compartilharam e
desenvolveram um corpo de conhecimento enorme. O progresso científico
trouxe para o homem controle sobre o ambiente e a saúde, e facilidade
para comunicar e armazenar idéias; o autor defende que seria importante
armazenar este conhecimento convenientemente para que se avançasse a
raça humana como um todo.
A questão seria encontrar uma forma de se fazer uso apropriado deste volume de informações sendo gerada. Informação que seria relevante para muitos é enterrada em meio à abundância absurda de conhecimento que é gerado, e as tentativas anteriores de se automatizar processamento, armazenamento e recuperação de conhecimento falharam por motivos tecnológicos e industriais que eram específicos à época. Os grandes avanços tecnológicos da época, no entanto, começavam a sugerir o início de uma possibilidade de se criar um sistema automatizado funcional.
A fotografia deveria evoluir para permitir registro conveniente em qualquer local, e revelação a seco seria de grande importância para se agilizar a consolidação das imagens. Uma tecnologia similar ao facsimile, associada a um aparato de projeção e à microfilmagem poderiam exibir convenientemente estas imagens capturadas.
Dispositivos para reconhecer e sintetizar fala começavam a aparecer.
Combinados ao stenótipo, um aparelho que imprimia uma forma simbólica da
língua falada, poderia ser possível se imprimir o que se fala. A
linguagem deveria ser adaptada para ser registrada mais apropriadamente,
e todo tipo de tarefa repetitiva deveria ser automatizada. As formas de
automação seriam movidas a energia elétrica, com cartões utilizados para
controle.
Seria importante manter a liberdade de movimento e a facilidade do registro para a maior quantidade possível de informações ser registrada e não ser perdida.
Usando relês, já existiam exemplos de automatização lógica. O uso de
uma simbologia poderia auxiliar em muito a formalização de procedimentos
lógicos para automação, e uma aplicação direta seria a filtragem de
conteúdo, similarmente à forma com que uma central telefônica seleciona
um número entre muitos com o uso de uma chave.
O texto cita um exemplo de uma loja com um sistema automatizado de vendas e controle de estoque; a automação era feita com cartões, e poderia utilizar fotografia a seco e gravação em microfilme para, ao final do mês, ser produzido um relatório para a cobrança, por exemplo.
A mente opera por associação, e isto torna indexar a informação de forma
alfabética ou numérica, ineficiente. O pensamento é mantido em uma teia
de conhecimento no cérebro; seria ideal encontrar uma forma de se fazer
algo análogo de forma automatizada.
O artigo sugere um aparelho chamado Memex, que armazena publicações,
livros e anotação, conjuntamente com fotos, como um suplemento à memória
humana com claridade e permanência melhor. O aparelho seria uma mesa de
trabalho, com telas para projeção, teclado e botões e alavancas: o
conteúdo armazenado seria armazenado em microfilme em um canto da mesa.
Este conteúdo poderia ser rapidamente recuperado, sendo indexado por
meio de códigos e mnemônicos para acesso fácil. Folhear entre as páginas
seria feito através de uma alavanca que avançaria ou retrocederia dentro
da publicação selecionada. Existiria um botão que convenientemente
levaria à página inicial do repositório.
A maior parte do conteúdo para o Memex existiria para aquisição: livros,
periódicos e jornais. Além disso, existiria uma plaqueta transparente
onde poderiam ser colocadas anotações, imagens e memorandos, criados pelo
usuário, para serem microfilmados e armazenados.
Documentos poderiam ser ligados em pares visualmente, usando os códigos
para fazer as ligações em si. Uma outra alavanca navegaria entre estas
ligações. Um caminho poderia ser criado seguindo estas ligações; a este
caminho seriam acrescidos notas e comentários entre eles. Este caminho
seria armazenado e poderia ser impressa e copiada para outro memex,
permitindo que outros pudessem se aproveitar deste caminho.
Enciclopédias pré-relacionadas apareceriam, assim como bases de conhecimento em todas as outras áreas científicas. Pesquisadores e interessados teriam acesso a estas trilhas de conhecimento, e trabalhariam agregando e criando novos caminhos.
No final do texto o autor sugere formas de se evitar o uso dos sentidos para ter acesso à experiência humana, fazendo amostragem direta dos impulsos nervosos e mecânicos do corpo humano. O artigo conclui com uma sugestão de que a civilização complexa que o Homem criou para si estaria melhor não taxando excessivamente sua memória e aproveitando uma forma de armazenamento claro e confiável. Desta forma, as tarefas centíficas passariam a ser focadas em analisar objetivamente os problemas atuais, se evitando perder em conflito o potencial de se utilizar este registro de seu conhecimento em seu benefício.
O artigo é uma exposição geral da situação tecnológica das áreas relevantes para o assunto do texto: fotografia, armazenamento de escrita e voz, e processamento desta informações. O artigo é uma visão e sugestão para a automatização de uma ferramenta cognitiva que se apoiaria nestas áreas.
Como foi escrito para uma revista não-científica, é razoável a
inexistência de referências e o tom (um pouco retórico) do texto.
O artigo é incrivelmente incisivo nos seus pontos principais; aparece
especialmente relevante a seção onde o autor afirma que o problema da
recuperação da informação tem relação com as técnicas usadas para
indexar o conhecimento -- a ordem alfabética e numérica são muito pouco
intuitivas.
É interessante perceber como a proposta de se criar um aparato mecânico
para solucionar o problema apresentado é algo que hoje seria visto como
algo totalmente inesperado; simplesmente não é considerado no texto o
assunto de digitalização ou discretização, que é a base para o
processamento de informação moderno. Também não é discutido nenhum tipo
de suporte para múltiplas línguas ou localidades, que são hoje vistas
como chaves para a disseminação livre de informação.
É interessante a citação do autor às maquinas que eram os predecessores
idealizados do Memex: a máquina analítica de Charles Babbage e a máquina
de calcular de Gottfried Leibnitz. Vale notar que mesmo o Memex nunca
foi construído.
Também é muito interessante perceber que o desejo de
se armazenar voz, texto e imagens se perpetuou por este tempo e que
encontrou na Web um veículo aceitável, finalmente.